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Novembro 24, 2005 DVD: O Guia do Mochileiro das GaláxiasFor Douglas por André Sirangelo ![]() Falar de O Guia do Mochileiro das Galáxias envolve mais uma questão de apresentação do que o simples dilema de resenhar. Douglas Adams está acima do falar bem ou falar mal, dizer o que funciona e não funciona, etc. e tal, e não porque suas obras se auto-defendem através do humor nonsense, hiperbólico, histérico, imprevisível - mas porque ele se encaixa naquele raríssimo e ensolarado lugar na história da cultura pop reservado aos gênios e visionários. O fato de Adams ser cultuado como um semi-deus na Inglaterra e de ser impossível entrar numa livraria em Londres sem ver sua trilogia em cinco partes numa posição destaque na seção de ficção-científica não é mera coincidência. O Guia é, de fato, um livro sobre a busca do sentido da vida; mas é, também, uma história legitimamente britânica sobre... o britanismo. (Com relação à dúvida sobre a existência dessa palavra, uma busca no Google revela 32 ocorrências, contra 17 de britanicidade e 0 de britaneidade. Para efeito de comparação, uma palavra certamente mais obscura como ditirâmbico traz 87 resultados, sinal de que ninguém liga muito para a análise dos hábitos bretões, ou de que as discussões a respeito do ditirambo são mais interessantes). Conhecer e ler o Guia enquanto aprendia a apreciar chá com leite, críquete e crises de cirrose hepática foi algo improvavelmente privilegiado e curioso, algo que o leitor das edições brasileiras não compartilhará comigo e que, na versão cinematográfica, ficou diluído em meio à injeção de capital hollywoodiano. Mas as melhores piadas estão quase todas lá. O cachalote está lá. E Martin Freeman nasceu para interpretar Arthur Dent. Apesar do caráter pessoal da coisa, que provavelmente me impede de tecer qualquer comentário que não seja de todo elogioso ao resultado que a adaptação dirigida por Garth Jennings atinge, eu posso apontar detalhes que não colaboram em nada. Em primeiro lugar, o rapper Mos Def não nasceu para interpretar Ford Prefect. Em segundo, a trilha sonora é uma tragédia (exceto pela canção dos golfinhos, é óbvio). E, em terceiro, eles deveriam ter explicado a importância da toalha. No mais, decisões criativas como a concretização do romance entre Arthur e Trillian (que nunca vai pra frente nos livros) se revelam acertos, e a transposição da linguagem de Adams (mais através de narração do que da direção, mas já era pedir demais) e as intervenções animadas do Guia do Mochileiro são o toque de midas, já previsto no roteiro original do escritor – que faria 53 anos este ano se estivesse vivo – e que transformam o filme numa experiência única, ecoando Monty Python até não poder mais. Adams chegou a escrever para o Monty Python’s Flying Circus. E também para Doctor Who, um seriado de ficção que é uma verdadeira instituição britânica, chegando a níveis de culto comparáveis com os de Jornada nas Estrelas. Tudo isso após desenvolver a série de rádio e, posteriormente, os livros com a saga de Arthur Dent ao redor do universo. Transformá-la em filme era um velho sonho, e por muito tempo a falta de tecnologia tornou o projeto inviável. Por isso, quando a tela escurece, a primeira coisa que se lê são as palavras “For Douglas”. Não é preciso ter aprendido a usar uma chaleira elétrica ou ter ficado minutos inteiros na frente da TV tentando entender o que exatamente aquelas pessoas faziam com aqueles bastões e umas bolinhas minúsculas para abrir um sorriso saudoso. Eis um cara que sabia fazer rir como ninguém. Novembro 23, 2005 DVD: CarnivàleMagia, suor, poeira e aberrações de circo. Bem vindo ao universo do seriado mais importante da década. por André Sirangelo Um homem com cara de negociador de arte, no alto de seus 40 e poucos anos, encara o grupo de executivos de uma rede de TV americana. "Então...", ele começa, "O que eu tenho para vocês é uma série sobre aberrações de circo em meio a uma batalha do bem contra o mal, ambientada na década de 30, contada a passos de cágado e cheia de simbologias e excentricidades. Vai lhes custar 4 milhões de dólares por episódio, 48 milhões por temporada. Onde eu assino?".Fosse essa rede qualquer outra que não a HBO, Daniel Knauf, a mente por trás de "Carnivàle", certamente teria sido enxotado. Só que o resultado desta cena (imaginária, é claro, mas que pode não ter sido tão diferente) foi um voto de confiança que gerou um marco na história recente da TV, cuja primeira temporada acaba de sair em DVD no Brasil. Descrita pelo criador como um encontro entre "As Vinhas da Ira" e "Twin Peaks", "Carnivàle" é ambientada durante a Grande Depressão, quando o sul dos EUA enfrenta um fenômeno que ficou conhecido como "Dust Bowl" - furiosas tempestades de areia que varrem cidades inteiras, aniquilando a agricultura e deixando milhares de desabrigados. Em meio à paisagem árida, uma espécie de parque de diversões itinerante abriga o fugitivo Ben Hawkins (Nick Stahl, "Sin City"), um jovem que esconde poderes sobrenaturais. Ao mesmo tempo em que é acolhido por membros da trupe, como o anão Samson (Michael J. Anderson, "Twin Peaks"), a cartomante Sofie (Clea DuVall, "21 Gramas") e a encantadora de serpentes Ruthie (Adrienne Barbeau, “Fuga de Nova York”), Ben aos poucos percebe que sua chegada pode não ter sido obra do mero acaso. Atraído para um perigoso jogo psíquico pelo vidente Lodz (Patrick Bauchau, “O Quarto do Pânico”), ele descobre fatos desconcertantes sobre seu passado e o das pessoas à sua volta, e se vê peça-chave numa trama arquitetada pela misteriosa figura sem nome que gerencia o circo. Paralelamente, vemos a trajetória de Justin Crowe (Clancy Brown, "Highlander"), um sacerdote com a ambição de erguer um templo para oferecer conforto espiritual aos refugiados do Dust Bowl, que chegam à Califórnia aos milhares. Mas ele também se vê atormentado por habilidades anti-naturais que insistem em se manifestar através de sonhos e visões e, enquanto Ben descobre possuir o dom da cura, os poderes de Justin aos poucos se revelam muito mais perturbadores. Na medida em que um encontro entre os dois vai se tornando algo inevitável, a história se aprofunda em temas como alienação, manipulação, fé e magia numa era pré-atômica, onde é possível sentir no ar e na poeira uma atmosfera de intensas mudanças históricas. Apesar de algumas vezes prejudicada pelo ritmo lento, “Carnivàle” tece ao longo de suas diversas camadas, com sofisticação narrativa e estética quase inacreditável para os padrões atuais da TV, uma mitologia única, povoada por personagens que certamente ficarão na memória de quem se deixar fisgar. O fato de a maioria deles serem pessoas com anomalias é algo que se sobressai. É curioso notar que, após algum tempo, não há estranhamento nenhum frente ao desfile de mulheres barbadas, anões de bengala ou gêmeas siamesas na tela. Da mesma forma, "Carnivàle" implora por uma chance de ser compreendida como produto de entretenimento, e isso pode levar algum tempo para o espectador acostumado às histórias mastigadas as produções da TV aberta americana oferecem. Quando acontece, no entanto, é como no diálogo mais marcante do primeiro episódio, quando Sofie relata para Ben a mágica de trabalhar na caravana. "As pessoas nessas cidades estão dormindo... Nós as acordamos". Por duas temporadas, Daniel Knauf e a audaciosa HBO ofereceram o mesmo efeito para aqueles que duvidavam que uma série de TV pudesse alcançar o status de grande arte. Fevereiro 25, 2005 Menina de OuroUma jovem esforçada e aspirante a boxeadora vê em um treinador veterano sua única chance de ser campeã mundial por Pedro Beck Million Dollar Baby é o tipo do roteiro que se fosse adaptado, e não original, as pessoas sairiam da sala de projeção e iriam correndo para seus computadores atrás de mais informações sobre Maggie Fitzgerald. Eu confesso, eu idolatraria aquela mulher. Mas então, como o filme é uma ficção, quem é o roteirista? Paul Haggis é a resposta. Mas a pergunta seguinte “O que ele já escreveu de significância?” tem uma resposta espantosa: Nada. Nothing. Zero. O roteiro é baseada no livro "Rope Burns", escrito pelo treinador Jerry Boyd sob o pseudônimo de F.X.Toole.Mas ainda bem, (quem viu sabe o que falo), é tudo uma ficção. Ficção brilhantemente dirigida pelo competente Clint Eastwood (Mystic River). Quanto a atuação da Hilary Swank (Meninos não choram) chega a ser ridícula de tão perfeita, sendo assim, não me prolongarei. É uma daquelas atuações “meant to be” onde a atriz nasceu para o papel. E merece com todas as forças levar a estatueta do Oscar na categoria em que concorre – melhor atriz. O filme conta uma história já batida: um relacionamento entre uma pessoa de idade e uma jovem. Parece a fórmula perfeita para arrancar lagrimas de um publico, seja essa a intenção ou não. (Vide Encontrando Forrester de Gus Van Sant e Sociedade dos Poetas Mortos de Peter Weir). Tudo começa quando Maggie aborda Frankie (Eastwood) nos bastidores de uma briga envolvendo um dos atletas de Frankie. Ela pede para ser treinada por ele e o mesmo a rejeita quase que automaticamente limitando-se em dizer que não treina garotas. Por persistência dela por algumas semanas (ela vai treinar na academia dele), e o fato de que seu melhor atleta o larga por outro treinador, Frankie decide aceitar o desafio de treiná-la impondo dezenas de regras a serem cumpridas. Ela praticamente chora e o abraça. Daí para frente é pancadaria para todos os lados (ela vence tudo!) e empolgação por parte de quem assiste. Mas você sempre fica com aquele gostinho de que algo ruim vai acabar acontecendo. E como em qualquer filme realista que se preze, eis que realmente acontece, e o filme mergulha em uma busca de valores e reflexões que te faz sentir um frio tremendo na espinha. Algo curioso que me deixou bastante sensível foi a atuação de Morgan Freeman, no papel de um sujeito bem simples e ex-boxeador que no passado também foi treinado por Frankie. E sua carreira fora interrompida por uma tragédia. A relação entre o personagem do diretor e do ator é comovente, os dois parecem dois irmãos discutindo sobre tudo, até mesmo sobre furos no dedão da meia. Os olhos negros e profundos de Eastwood não ajudam muito a segurar a emoção que você sente na pele vendo Maggie. E o background do personagem (ele não mantém contato com a filha) influi totalmente em sua relação com a aspirante à boxeadora. É um filme que impõe muito respeito na limitada lista de indicados a “melhor filme” e sem duvida, é mesmo o melhor filme. Se vai levar a estatueta ou não, são outros quinhentos. É provável que leve pouquíssimas das sete em que disputa, mesmo merecendo honrosamente cada uma delas. Parece mesmo ser o ano de Scorsese depois de tantas injustiças no passado e então Menina de Ouro entrara para aquele vasto grupo de “não ganhou por que?” sem nunca termos uma resposta que justifique a não coroação desta obra-prima contemporânea. Janeiro 29, 2005 Jogos MortaisUm thriller psicológico que como o próprio cartaz promocional já sugere, deixa Seven comendo poeira por Pedro Beck Saw é um daqueles filmes que custam 500 mil dólares e tem um lucro de 300%. Por quê? Porque é um dos poucos roteiros bem originais que são levados a sério e caem nas mãos dos produtores certos. É também, um filme absurdamente perturbador, de tirar o fôlego, daqueles que te mantêm na cadeira por todo o seu tempo de projeção.“Esqueça Seven!” é um dos principais chamarizes do filme, obrigando aos fãs do gênero “thriller” irem ao cinema. Seven até hoje foi o filme referência do gênero e provavelmente continuará sendo, levando-se em conta que Saw é um filme pequeno e cá entre nós, não é protagonizado por Brad Pitt e Kevin Spacey. Dirigido pelo novato James Wan, um baixinho descendente de orientais, o filme foi sucesso absoluto nos Estados Unidos e a produção da seqüência do filme, Saw 2, já começa agora em meados de fevereiro. Jogos Mortais, título nacional do thriller, começa freneticamente. Logo na primeira cena os dois protagonistas do filme, Adam e Gordon acordam em um banheiro. Ambos estão acorrentados na encanação do lugar, um em cada lado do banheiro. Aos poucos, eles vão se conhecendo e pensando como foram parar ali. Entre eles, no meio do banheiro, há um homem morto e seu sangue está por todo lado. Em sua mão, vemos uma arma. E à partir daí, o enredo vai se complicando, sub-tramas vão surgindo, e o espectador é feito de bobo, tamanha a genialidade da fita, que em menos de vinte minutos de projeção, te fazem suspeitar de mais de cinco pessoas. Ultimamente, a Lion Gates tem acreditado em diretores que aparecem querendo mostrar serviço, como Wan, Richard Kelly, Eli Roth e companhia e o fruto já está sendo colhido. Pelos espectadores principalmente. Uma nova safra no gênero terror/thriller parece disposta a mostrar serviço, colocando os teens drogados e as cheerleaders peitudas de lado, em prol do lado psicológico de um drama que se bem trabalhados, acabam rendendo clássicos contemporâneos do gênero como Session 9, Donnie Darko, Cabin Fever e agora Saw. Janeiro
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